"Ao escolher palavras com que narrar minha angústia, eu já respiro melhor. A uns Deus quer doentes, a outros quer escrevendo." Adélia Prado

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Lições

Parece que por fim começo a aprender
Lento como só o tempo sabe ensinar
Porém nunca tardio, pois estou vivo.
A didática da repetição cíclica é inexorável
Implacável assimilação
Sinto-me velho
Não a velhice da carne que definha e fenece
Apenas o saber de mim grão que floresceu
Virei planta crescida e meu destino é dar frutos
Falaram-me da contemplação
Se sou árvore de firme caule,
Tiro do vento que me balança os galhos a sabedoria que me renova as folhas
Firmes raízes me seguram quando tempestade
Foram cavar na terra das experiências vividas a força que as nutre e as mantém fortes
Que bela paisagem formou-se ao meu redor
Certo que não sou floresta tamanha a pequenez de minha formação ainda
Mas, sim, já me sinto jardim,
Pois que rosas de perfume único se avizinham da base que me firma
A grama é verde nos dias de sol
E é irresistível de brincar nos dias de chuva
Tanto se passou até chegar até aqui
Vejo então que esse é o melhor lugar
Porque é feito de tudo que eu tenho presente
É presenteado por tudo que eu tenho feito
É o retrato de minha condição
Meu testamento em vida
Minha herança ante a não morte
Meu resgate no momento oportuno
Minha bênção por querer acreditar
Minha insistência em me fazer feliz
O reconhecimento de que serei eterno
Assim como o vento, a terra, a relva
O aconchego do colo de mãe
O abraço saudoso dos que se obrigam distantes
A aliança de sangue do bem-querer familiar
A celebração da união dos que se amam
Volto pro berço que me criou para fazer ninar os que me aguardam
Retorno homem, senhor de minhas conquistas
Peço-lhes licença para falar de mim e de quem me tornei também por obra deles
Trago comigo presentes encantados do meu novo mundo
Ofereço-lhes a sombra da árvore que me tornei
Convido-lhes a um piquenique à beira-mar
Celebro a nossa história de tantas vidas
Anseio pintar um quadro com nossa fotografia
Para colorir com minhas novas tintas a impressão que o negativo não capta
Quero sujar minhas mãos com as cores dos nossos corações
Ah, saudade que não me faz calar!
Ê, vida que tanto me encanta!

3 comentários:

  1. Caramba!!!!!! Que coisa linda... me encheu os olhos de água. Falarei dessa tua poesia pra ti. A experiência que me causou foi incrível. E que bom que veio hoje... logo hoje que eu me sentia a folha mais seca do jardim de outono que jaz naquela tarde ressequida pela dor do desamor, da contradição. Mas agora, revivo, canto, danço e contigo, meu amigo. Hoje, meu anjo cuidador.

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  2. Comemoremos então diante de nosso jardim. Ele foi plantado a duas mãos. Nada mais faz do que colher o que plantou nessa terra que sou eu.

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  3. Vida que me encanta, poesia que me encantou! Cada palavra significada e ressignificada por cada um que a lê e relê. Cada verso enraizado no coração do leitor (também aqui escritor, na interpretação e recriação do dito, e por vezes do não dito, ou não querido dizer)...

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