Ah, inquietude infame que me comanda!
De onde vem o teu clamor que me tira o sono?
Por que não me arrancas da inércia do não fazer?
Se me levas à deriva de um sonho improvável,
Não seria melhor me ceifar definitivamente?
Qual o propósito de a uns ser dado tamanhos questionamentos,
Se na conta das atitudes são devedores de uma vida toda?
Como é possível um encaixe de tantas peças num molde tão pequeno?
Haverá um retrato final pra esse quebra-cabeças insolúvel?
Quanto amargor ainda há a saborear dessa ignorância irremediável?
De quais respostas anseia o teu cenho acabrunhado?
E pior, de que adiantará ouvi-las se a tua certeza é insensata aos sentidos?
Queres uma vida de lucidez perene
Não te aceitas como louco errante
E isso te fere
Produz chagas de uma negritude fúnebre em teu orgulho dourado
E o teu abismo te chama...
Uma vez nele o eco da tua voz não encontra saída que não pela dor
Requer de ti um desnudamento da tua fragilidade latente
Faz disso a tua rendição diante da pequenez das tuas falhas
E são tantas...
Então ata, por fim, a tua cicatriz de paladino da verdade
Silencia aquele grito calado que a poucos corações alcança
Aquieta tua cabeça em teu próprio peito
Num sussurro, murmura para ti somente o que já nunca foi segredo
Pois não é de hoje que és o que é
E dificilmente deixará de sê-lo.