"Ao escolher palavras com que narrar minha angústia, eu já respiro melhor. A uns Deus quer doentes, a outros quer escrevendo." Adélia Prado

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Ousadia

O abandonar da inocência tem um preço.
Certo que um novo mundo reluz brilhante diante de seus olhos,
Mas há um desprender-se pesaroso
Que parece nunca se esvair completamente.
O novo homem é seguro de si.
Exibe sorrisos e histórias de vencedor,
Porém há um choro contido de criança escondida atrás da porta,
Que repercute insistente entre os vãos do que seria sua nova estrutura.
Ele bate no peito com a valentia de quem sabe da vitória.
E sofre calado quando sente que matou a semente da flor que germina pureza.
Dorme e acorda questionando-se se o retorno é possível.
Bebe os aplausos dos que não enxergam o copo vazio.
Acalenta o sonho de se ver redimido.
Ousou desvestir-se das amarras do passado.
Abraçou a experiência do igualar-se à multidão.
Foi feliz nos pequenos lampejos de sentido.
Mas ainda chora, pois sua troca de pele não ocorre sem a perda de sangue.
Coleciona títulos de meritoso descaso.
Submete à inquisição de sua consciência a sua trajetória de alterados desejos.
Deixa arder na fogueira os impulsos que saciam sua fome do novo.
Dorme nas cinzas da imensidão de corpos do acaso.
Relata suas viagens com orgulho de falso guerreiro.
Reencontra sua verdade nos atropelos da idade avançada.
Resplandesce por não fugir mais uma vez à luta.
Compreende que tudo isso foi preciso.
Conclama a platéia a ovacionar sua ousadia.
Finca os pés novamente na única certeza que lhe resta:
De que não tem escolha diante da vida,
E que pra estar vivo é preciso viver.

Mergulhos

O que vou me tornar se, de repente, decidir não ser?
Qual será o meu encaixe?
Em que realidade eu viverei?
Mesmo no meio do fogo, quero tomar tranquilo banho de chuva
Não sei como falar de flores num mundo em que se planta status e se colhem egos
Como apresentar a dança da minha tribo?
Quantos dela ainda restam?
Já não se cansaram de sonhos e agora também se vestem de egos?
Por que o medo de que identifiquem o meu signo?
De que decifrem a minha língua?
Não tenho por ela o devido respeito?
Nem mesmo eu acredito na bandeira que levanto?
Recusar a oferta do baile das delícias é prudência ou covardia?
Fugir do confronto é digno de quem se diz sabedor da bondade?
Escondendo-se os bons, quem restará para testemunhar a favor do bem?
E se houver um refém a ser salvo?
Que fazer com a esperança que o manteve vivo até agora?
A fraqueza do medo impediu o sucesso de suas lágrimas
Vai deixá-lo mais um tempo à espera de um resgate
Nessa noite, não foi o desprendimento da vaidade quem venceu
Mas o orgulho travestido de timidez,
Que não suportou a possibilidade de se ver mais um em meio a tantos,
Ou quem sabe menos que isso até.