Reside à sombra uma falsa zona de conforto
É comum fazermos dela nossa ilusória fortaleza
Nela nos resguardamos e muitas vezes nos esbaldamos
Sua solidão celada é uma cabana de refúgio
De suas torres observamos a visão caótica dos corajosos que foram à luta
Quando nela, cruzamos a ponte do prazer sem o pedágio da responsabilidade
Existem rotas de fugas, túneis secretos e pontes levadiças que erguemos ao sabor do momento
Somos reis e plebeus dessa cidadela
Ora senhores de suntuosos salões, ora prisioneiros de escuros calabouços
Só que não dá pra viver pra sempre atrás dos muros
Em algum momento você foi lá fora e viveu além do que pretendia
Não conseguiu fugir tão rápido quanto pretendia pro seu esconderijo
Você subiu a ponte, travou os portões e celou as entradas
Mas aí já era tarde
Mesmo dentro de seu abrigo, você já estava capturado
Não dava mais pra viver como seu próprio bobo da corte
Agora você quer armaduras e um cavalo pra lutar ao lado dos corajosos
Então você empunha sua bandeira, veste-se com sua insígnia e desembrulha suas medalhas
Branda seu grito de guerra e se atira à batalha
Como um tolo idealista, você acreditou que seus anos de reclusão o haviam imunizado das dores do confronto
Você pensou que as tantas reflexões em seu refúgio tinham introjetado em sua alma uma imunidade às feridas do campo
Mas suas cicatrizes ainda continuavam expostas
De repente seu peito foi ferido, seu elmo desprendeu-se, seu escudo quebrou-se e seu cavalo tombou
Caído e zonzo, você quer voltar pra fortaleza e carregar os canhões
Melhor seria atacar lá de dentro, mas as guerras não são vencidas atrás das muralhas
Pergunta-se que tipo de cavaleiro você se tornou nos anos em que lhe foi poupado o embate
Contra quais dragões você empunha a sua espada?
Não deixe antes que os que cria lhe devorem
Você habitou todos os recantos de sua fortaleza pelo período necessário
Aprendeu do alto da torre a ver os horizontes de cima
Que lições você internalizou na solidão do calabouço?
Seu período eremita precisa lhe fazer ressurgir bravo guerreiro
Não perca a batalha para si mesmo, senão já voltará a campo vencido
Você precisa conhecer qual o seu ideal de vitória
Entender por que lhe foi imprimido o retorno
Confiar em quem lhe inspirou o regresso
Se seus ouvidos não estavam moucos praquela canção
Se aqueles olhos te arrastaram pra fora
Se o seu peito ressoa agora numa batida conjunta
É porque é chegada a hora da retomada
Você já provou da brisa e sabe que é possível
Relembre o que admirava nos corajosos e o que aprendeu os observando à distância
Saiba que o seu caminho é particular e não será desprendido de quedas
Aceite o desafio de viver o que lhe foi ofertado
Renegue o seu castelo e volte a deitar à relva
Ofereça seu peito de travesseiro a esse sentimento
E durma tranquilo ao lado de quem inusitadamente lhe resgatou.