"Ao escolher palavras com que narrar minha angústia, eu já respiro melhor. A uns Deus quer doentes, a outros quer escrevendo." Adélia Prado

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Das Muitas Facetas do Amor

Talvez não exista atualmente palavra mais verbalizada que esta. Contraditoriamente, não imagino outra que seja tão menosprezada de sentido prático por parte da grande maioria que dela se fazem arauto. Vejo seu brado insistente nos suspiros dos amantes neófitos. Ouço seu clamor corrosivo através dos inconformados solitários. Sinto seu perfume sedutor que inebria os cegos corações apaixonados. Mas de que seria feita a praticidade do amor? De que forma se identifica a realeza desse sentimento? Muitas vezes, inebriados pela felicidade do sonhado encontro ou da solidificação da promessa da eterna entrega, ultrapassamos os limites que sedimentam a base desse sentimento.

O amor pelo outro, que deveria traduzir-se em zelo e respeito pela individualidade alheia, passa a figurar como uma necessidade infantil de posse e solução para as suas próprias incompletudes. Inundar o ser amado com a sua presença não é doação, é egoísmo. O amor deve crescer na exata medida da sua necessidade, dentro da particularidade que lhe é própria, pois todo amor que acaba de nascer vai ser sempre diferente do amor do vizinho.

A vaidade dos jovens amantes tende a se transformar em soberba, pois é tão difícil hoje em dia se deparar com o amor em sua forma mais pura, que parece haver uma urgência em gritar ao mundo que você foi o agraciado da vez. Existe um perigo nessa atitude muitas vezes identificado apenas pelos mais maduros na arte de amar. Seu reflexo se apresenta aos poucos, vai mitigando a admiração, expondo uma fragilidade sufocante e uma exigência desmedida, até finalmente definhar ou esmorecer em sua fortaleza.

Dizer-se afortunado pelo amor pode até parecer simples e talvez se apresente mais corriqueiro do que imaginemos. Exercer esse privilégio de uma maneira altruísta exige uma elevação que poucos conseguem atingir numa única vida. Abrir mão do afago no ego quando há reciprocidade explícita do encontro certeiro é raro. Saber recolher-se ante as impossibilidades circunstanciais carece de uma crença intuitiva no futuro, justificada apenas pela íntima sensação do ser de que tudo tem um tempo certo a ser vivido.

Encontrar alguém que nos queira o suficiente pra aceitar o preço dos nossos sonhos não é fácil. Se as pessoas se debatem diante dos amores mais óbvios, imagine então quando se deparam com os amores inexplicáveis aos espíritos menos preparados? Aquele tipo de amor insolucionável, mas inexoravelmente legítimo, que foge aos padrões estabelecidos e derrama-se diante de todos como uma verdade cristalizada. Esse sobrevive triunfante, ignorando quaisquer intempéries que se apresentem em seu caminho. Fortifica-se do reconhecimento retro-alimentado, pois não exige do outro senão a realização de sua felicidade, mesmo que isso signifique o não-compartilhamento constante do seu viver.

E quem seria eu pra tentar dar corpo a esse sentimento quando outros tantos poetas infinitamente mais sensíveis e mais doutos já o fizeram? Eis que ouso me arriscar nessa seara e faço uso dos seus reflexos em mim pra externar, por uma necessidade não sei qual, uma inquietação que me corrói, tentando trazer à tona algo sobre minhas indagações e descobertas acerca do peso dessa palavra. Se consegui ou não, pouco importa. Pelo menos assim me sinto mais leve.