Onde estou que não acordei?
Que fazes tu errante que não me tomas de volta?
Não quero do sol o calor amanhecido, mil vezes teu abraço
Tira-me as marteladas que me zangam irritantemente
É de beijos macios que preciso
Planos de um dia que há muito não tenho
Não de hoje os reservo pra ti, pra nós
Não sou avesso a obrigações
Ao contrário, cumprí-las me faz senhor do meu tempo
Mas hoje, não.
Hoje queria a leve entrega do embalo cuidadoso
Deixar-me guiar pra onde teu desejo realiza a minha saciedade
Saber de mim criança em teu colo de ninar
Pelo caminho dos teus olhos enxergar tua alma
Ouvir teu riso solto de satisfação
Sentir que me queres não pela fala, mas pela falta de ar que te provoco
O arrepio de tua pele é o melhor atesto da tua vontade de mim
Se tão irremediavelmente perfeito é tudo isso que brota de nós dois,
Por que então me deixas sonhando?
Vem com o aval de quem sabe de mim teu e, por fim, me acorda.
"Ao escolher palavras com que narrar minha angústia, eu já respiro melhor. A uns Deus quer doentes, a outros quer escrevendo." Adélia Prado
domingo, 29 de agosto de 2010
sábado, 21 de agosto de 2010
Chuva que não pára
Deus, quanta sede!
A água de beber que me refresca não me sacia
Sinto no canto da boca a água que cai do céu
Bom saber que ainda chove por essas terras
Chuva de veraneio, com brisa
E não esqueça do vento
Ah, vento maroto que me sopra a nuca!
Folhas trazidas por ele sancionam antigos desejos
Tudo bem que o que foi tempestade hoje é garoa
Mas nada como deixar-se banhar pela pureza da água que vem de cima
Águas que já fizeram crescer carvalhos
Hoje elas apenas regam as flores da cova dos que morreram nas tempestades
E foram tantos os mortos nos últimos tempos
Alguns se foram para sempre
Mas nunca deixarão de servir de alimento a tudo que floresceu ao redor
Para os que insistem
Sempre existirão os fantasmas
Espíritos que se recusam a fazer a passagem
Volta e meia eles aparecem para beber na fonte
O sabor não é mais o mesmo, mas a essência sempre será
E é da essência que falo
Por ela ainda insisto
Com ela conclamo a criança que nunca dorme a brincar na chuva
Desnuda, liberta, enriquecida
Num paradoxo de tamanho entre o que é grande por dentro e pequeno por fora,
No afã de tornar chuva em rio e rio em mar,
Perco-me nesse mar
Pois é nele que tudo finda
Será nele meu último mergulho
Antes de me ascender chuva
E mais uma fez voltar a regar as flores
A água de beber que me refresca não me sacia
Sinto no canto da boca a água que cai do céu
Bom saber que ainda chove por essas terras
Chuva de veraneio, com brisa
E não esqueça do vento
Ah, vento maroto que me sopra a nuca!
Folhas trazidas por ele sancionam antigos desejos
Tudo bem que o que foi tempestade hoje é garoa
Mas nada como deixar-se banhar pela pureza da água que vem de cima
Águas que já fizeram crescer carvalhos
Hoje elas apenas regam as flores da cova dos que morreram nas tempestades
E foram tantos os mortos nos últimos tempos
Alguns se foram para sempre
Mas nunca deixarão de servir de alimento a tudo que floresceu ao redor
Para os que insistem
Sempre existirão os fantasmas
Espíritos que se recusam a fazer a passagem
Volta e meia eles aparecem para beber na fonte
O sabor não é mais o mesmo, mas a essência sempre será
E é da essência que falo
Por ela ainda insisto
Com ela conclamo a criança que nunca dorme a brincar na chuva
Desnuda, liberta, enriquecida
Num paradoxo de tamanho entre o que é grande por dentro e pequeno por fora,
No afã de tornar chuva em rio e rio em mar,
Perco-me nesse mar
Pois é nele que tudo finda
Será nele meu último mergulho
Antes de me ascender chuva
E mais uma fez voltar a regar as flores
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