"Ao escolher palavras com que narrar minha angústia, eu já respiro melhor. A uns Deus quer doentes, a outros quer escrevendo." Adélia Prado

terça-feira, 27 de julho de 2010

Tudo Que Quero

Chega mais uma vez aquele dia
Que começa como todos os outros assim começam
Mas por que é diferente?
Afinal, o sol não nasce no mesmo horizonte de sempre?
Só porque os meus horizontes contabilizam mais um ciclo a cor do dia é outra?
Sim, pior (ou melhor) que sim
Acordo com minha cota de carência já no vermelho
Quero todos os abraços, todos as felicitações, todas as saudades e todos os "te quero" que puder ouvir
Lágrimas de quem me trouxe a esse mundo
Orgulho de quem me viu crescer
Emoção de quem sabe que pode contar comigo
Felicidade de quem me tem por perto, mesmo que longe ao mesmo tempo
Quero a promessa de amor que nunca vivi
A certeza de que um dia ele virá
O reencontro dos beijos que se atraem
O sussuro ardente do desejo contido
Saber que nas entrelinhas ainda está o maior dos encantos
E mesmo que nada disso passe de um devaneio de um jovem senhor que mais de si acha que sabe
Quero me entregar à delícia de em tudo isso acreditar
Minutos que congelam na risada gostosa que consigo arrancar
A entrega da hesitação
A inquietude que o reconhecimento do outro lhe traz
Quero a lembrança do olhar passageiro
A consideração do bom exemplo
A inspiração do trabalho bem realizado
Quero a noite que se aproxima
A insegurança do sucesso esperado
O não saber no que dá a junção das partes
Os dissabores do que me foge ao controle
A recordação inesperada
A certeza de que estou no caminho certo
E acima de tudo, se do mundo acreditar um jardim
Quero a certeza de que as sementes que plantei o ajudaram a estar mais florido.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

A Poesia do Encontro

" Fernando Pessoa escreveu a declaração de amor mais bonita e profunda que conheço:

Quando te vi, amei-te já muito antes.
Tornei a achar-te quando de encontrei.

Veja, é uma coisa esquisita, há aí uma sintaxe atrapalhada: Quando te vi, amei-te já muito antes. O que ele está dizendo é: ' eu já amava você numa imagem que morava em mim, de modo que encontrar com você não foi encontrar com você, mas reencontrar com a coisa que eu já amava'. Essa é a experiência poética por excelência: repentinamente ela revela uma imagem que já existia em nós.
Isso também vale para a música. Por exemplo, nós nos comovemos com uma música. Uma boa explicação disso vem dos gregos, de Platão. Não nos sentimos tocados porque a música seja bela. O que faz com que ela tenha tal efeito sobre nós é que, na verdade, ela já existe dentro da pessoa. O que o artista faz é apena tocar para que a Bela Adormecida que há dentro de nós ressoe.
Voltando à questão da imagem. A gente capta aquela imagem e, de alguma maneira, é um pedaço da alma da gente. É por isso que é uma experiência não de conhecer, mas de reconhecer. A pessoa não se encontra, se reencontra, o que é uma das coisas fantásticas da poesia. "

Trecho do livro A Poesia do Encontro, de Elisa Lucinda e Rubem Alves.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Deixar-se

Na inspiração da música eu me refaço
Na intimidade do momento eu me revejo
Na calma da paciência eu deveria saber esperar

Na insistência do bem eu me respeito
Na surpresa do instante eu me fascino
Nos olhos do encontro cresce a minha alma

Na indefinição do que é novo eu me atormento
No aconchego do abraço eu me dôo
Na iminência do amor eu me rendo.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

A Eterna Busca

Vivo querendo renegar alguns sinais que me ocorrem
Talvez por uma insistente necessidade de prova,
Que será sempre superada por uma nova dúvida a cada novo indício que me surja
Quero a resposta, mas não me decido ao certo em emitir a verdadeira pergunta
Pode ser que deseje materializar o imponderável
Tarefa árdua essa, a de dar forma ao que é etéreo

Caio, me espezinho, me lambuzo, me regozijo, me revolto... me desespero, ou nem tanto
Paro, me recomponho, me arremeto, me arrefeço, me dedico... me resgato, ou alguém o faz por mim
A cada novo ciclo desse sinto que algo muda
E o mais mágico: a resposta me toca na alma
É através dela que mais entendo
É pela intuição do bem e do amor que a vida me disciplina
Por mais estudante rebelde que eu me revele
Ela está sempre ali, professora-mãe-doutora, pra me impulsionar pro que de bom eu vim aqui fazer

Eu me resumo mais uma vez pra entender
Entender quem agora eu sou pra receber o que vem
Mas nesse instante eu só consigo sentir...
E talvez essa seja a verdadeira tarefa humana
Sentir a vida, e não entendê-la

sábado, 17 de julho de 2010

Acordando...

Na manhã vencida pelo sono tardio, acordo mais uma vez para o mundo
Ouço os sons que entram pela janela e pelas frestas da porta
A cama me chama mais um pouco, o colchão me quer, o cobertor me abraça
A mente diz: Faça algo! Planeje! Mova-se!
O corpo fala: Acalma-te! Aguarda! Espera-me!
O banho me torna mais consciente (será?)
O banho me desperta um pouco mais
Troco o barulho do dia pela trilha sonora que eu mesmo escolho
O dia hoje vai começar lento
Lenta é a minha volta ao mundo dos despertos
Ponho-me a pensar qual será a tônica do dia
O ronco do estômago me lembra que antes disso devo comer algo
Movo-me em direção à cozinha para satisfazer-me com um sabor diferente dos demais dias
Afinal, hoje é sábado e a rotina pede pra ser deixada de lado, pois tirou férias e só volta na segunda
Saciada a fome do início do dia, resta a surpresa da encomenda na mesa
Fruto da ânsia do resgate de mim mesmo, as primeiras páginas não me convencem
Martelando conceitos que já não mais, ou talvez nunca, se justicaram na minha mente
Já penso em abandoná-la nos poucos minutos seguintes
É quando relembro os últimos momentos em que me senti acordado
Olho a luz que bate no prédio ao lado
É a luz do sol
É apenas uma parede que recebe a luz do quase meio-dia
Há menos de uma semana talvez ela não dissesse nada além disso aos meus olhos
Mas hoje, não. Não a partir daquele momento
Não agora que acordei
Agora que acordei para a luz que bate na parede
Que acordei para o frio da finada manhã que me chama de volta pra cama
Que acordei para a melodia que vem lá de dentro e me inspira
Que acordei pra ler, ver e ouvir Lucinda
Que acordei para a retomada
Enfim, agora que acordei para a POESIA.


P.S: Essa é pra vc, minha querida Amanda, a salva-vidas que me despertou.