"Ao escolher palavras com que narrar minha angústia, eu já respiro melhor. A uns Deus quer doentes, a outros quer escrevendo." Adélia Prado

quarta-feira, 21 de julho de 2010

A Poesia do Encontro

" Fernando Pessoa escreveu a declaração de amor mais bonita e profunda que conheço:

Quando te vi, amei-te já muito antes.
Tornei a achar-te quando de encontrei.

Veja, é uma coisa esquisita, há aí uma sintaxe atrapalhada: Quando te vi, amei-te já muito antes. O que ele está dizendo é: ' eu já amava você numa imagem que morava em mim, de modo que encontrar com você não foi encontrar com você, mas reencontrar com a coisa que eu já amava'. Essa é a experiência poética por excelência: repentinamente ela revela uma imagem que já existia em nós.
Isso também vale para a música. Por exemplo, nós nos comovemos com uma música. Uma boa explicação disso vem dos gregos, de Platão. Não nos sentimos tocados porque a música seja bela. O que faz com que ela tenha tal efeito sobre nós é que, na verdade, ela já existe dentro da pessoa. O que o artista faz é apena tocar para que a Bela Adormecida que há dentro de nós ressoe.
Voltando à questão da imagem. A gente capta aquela imagem e, de alguma maneira, é um pedaço da alma da gente. É por isso que é uma experiência não de conhecer, mas de reconhecer. A pessoa não se encontra, se reencontra, o que é uma das coisas fantásticas da poesia. "

Trecho do livro A Poesia do Encontro, de Elisa Lucinda e Rubem Alves.

Um comentário:

  1. Livro mais belo que já li em toda a minha vida. Meu escritor e minha escritora preferidos se reúnem e daí brota uma conversa fascinante! Texto para ser (re)lido tantas infinitas vezes!!!

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