"Ao escolher palavras com que narrar minha angústia, eu já respiro melhor. A uns Deus quer doentes, a outros quer escrevendo." Adélia Prado

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Cotidiano

Tem dias que o seu espírito acorda insuportavelmente inquieto. É uma angústia de "não-sei-quê". Você questiona até o porquê de ter comprado o creme dental daquela marca. Refaz mentalmente sua trajetória até ali. Ensaia mil e uma maneiras de começar o dia diferente, mas acaba no automatismo que lhe é peculiar pela manhã. Promete que, desde então, marcará finalmente na agenda todas as coisas que des...de janeiro já deveriam ter sido postas em prática. Desliga a TV pois aquela repetição de notícias corriqueiras lhe aborrece sobremaneira. Desiste de ouvir aquela música que deveria lhe animar. Come algo diferente na esperança de entorpercer a mesmice através da gula e no meio do caminho se irrita por pensar na trabalheira que vai dar perder aqueles quilos que, óbvio, você não vai ganhar apenas naquela refeição. Quando menos percebe, já está sentado na sua mesa de trabalho, após ter visto pela janela do trânsito milhões de cenas que lhe causaram indignação, impotência, revolta e desânimo. Faz a sua melhor cara de contente e se prepara para disparar "bom-dias" e sorrisos amarelos a todos aqueles que, forçosamente, se presta a conviver durante um terço do seu dia. Recomeça a contagem regressiva diária para a finalização de mais um dia "mais ou menos" na sua vida. Repassa na memória os sonhos guardados, os medos contidos e as incertezas vencidas. Espera que dessa vez se emende e reza pra que a enchurrada de pensamentos se transforme, definitamente, em acões.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Das Minhas Batalhas

Reside à sombra uma falsa zona de conforto
É comum fazermos dela nossa ilusória fortaleza
Nela nos resguardamos e muitas vezes nos esbaldamos
Sua solidão celada é uma cabana de refúgio
De suas torres observamos a visão caótica dos corajosos que foram à luta
Quando nela, cruzamos a ponte do prazer sem o pedágio da responsabilidade
Existem rotas de fugas, túneis secretos e pontes levadiças que erguemos ao sabor do momento
Somos reis e plebeus dessa cidadela
Ora senhores de suntuosos salões, ora prisioneiros de escuros calabouços
Só que não dá pra viver pra sempre atrás dos muros
Em algum momento você foi lá fora e viveu além do que pretendia
Não conseguiu fugir tão rápido quanto pretendia pro seu esconderijo
Você subiu a ponte, travou os portões e celou as entradas
Mas aí já era tarde
Mesmo dentro de seu abrigo, você já estava capturado
Não dava mais pra viver como seu próprio bobo da corte
Agora você quer armaduras e um cavalo pra lutar ao lado dos corajosos
Então você empunha sua bandeira, veste-se com sua insígnia e desembrulha suas medalhas
Branda seu grito de guerra e se atira à batalha
Como um tolo idealista, você acreditou que seus anos de reclusão o haviam imunizado das dores do confronto
Você pensou que as tantas reflexões em seu refúgio tinham introjetado em sua alma uma imunidade às feridas do campo
Mas suas cicatrizes ainda continuavam expostas
De repente seu peito foi ferido, seu elmo desprendeu-se, seu escudo quebrou-se e seu cavalo tombou
Caído e zonzo, você quer voltar pra fortaleza e carregar os canhões
Melhor seria atacar lá de dentro, mas as guerras não são vencidas atrás das muralhas
Pergunta-se que tipo de cavaleiro você se tornou nos anos em que lhe foi poupado o embate
Contra quais dragões você empunha a sua espada?
Não deixe antes que os que cria lhe devorem
Você habitou todos os recantos de sua fortaleza pelo período necessário
Aprendeu do alto da torre a ver os horizontes de cima
Que lições você internalizou na solidão do calabouço?
Seu período eremita precisa lhe fazer ressurgir bravo guerreiro
Não perca a batalha para si mesmo, senão já voltará a campo vencido
Você precisa conhecer qual o seu ideal de vitória
Entender por que lhe foi imprimido o retorno
Confiar em quem lhe inspirou o regresso
Se seus ouvidos não estavam moucos praquela canção
Se aqueles olhos te arrastaram pra fora
Se o seu peito ressoa agora numa batida conjunta
É porque é chegada a hora da retomada
Você já provou da brisa e sabe que é possível
Relembre o que admirava nos corajosos e o que aprendeu os observando à distância
Saiba que o seu caminho é particular e não será desprendido de quedas
Aceite o desafio de viver o que lhe foi ofertado
Renegue o seu castelo e volte a deitar à relva
Ofereça seu peito de travesseiro a esse sentimento
E durma tranquilo ao lado de quem inusitadamente lhe resgatou.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Das Muitas Facetas do Amor

Talvez não exista atualmente palavra mais verbalizada que esta. Contraditoriamente, não imagino outra que seja tão menosprezada de sentido prático por parte da grande maioria que dela se fazem arauto. Vejo seu brado insistente nos suspiros dos amantes neófitos. Ouço seu clamor corrosivo através dos inconformados solitários. Sinto seu perfume sedutor que inebria os cegos corações apaixonados. Mas de que seria feita a praticidade do amor? De que forma se identifica a realeza desse sentimento? Muitas vezes, inebriados pela felicidade do sonhado encontro ou da solidificação da promessa da eterna entrega, ultrapassamos os limites que sedimentam a base desse sentimento.

O amor pelo outro, que deveria traduzir-se em zelo e respeito pela individualidade alheia, passa a figurar como uma necessidade infantil de posse e solução para as suas próprias incompletudes. Inundar o ser amado com a sua presença não é doação, é egoísmo. O amor deve crescer na exata medida da sua necessidade, dentro da particularidade que lhe é própria, pois todo amor que acaba de nascer vai ser sempre diferente do amor do vizinho.

A vaidade dos jovens amantes tende a se transformar em soberba, pois é tão difícil hoje em dia se deparar com o amor em sua forma mais pura, que parece haver uma urgência em gritar ao mundo que você foi o agraciado da vez. Existe um perigo nessa atitude muitas vezes identificado apenas pelos mais maduros na arte de amar. Seu reflexo se apresenta aos poucos, vai mitigando a admiração, expondo uma fragilidade sufocante e uma exigência desmedida, até finalmente definhar ou esmorecer em sua fortaleza.

Dizer-se afortunado pelo amor pode até parecer simples e talvez se apresente mais corriqueiro do que imaginemos. Exercer esse privilégio de uma maneira altruísta exige uma elevação que poucos conseguem atingir numa única vida. Abrir mão do afago no ego quando há reciprocidade explícita do encontro certeiro é raro. Saber recolher-se ante as impossibilidades circunstanciais carece de uma crença intuitiva no futuro, justificada apenas pela íntima sensação do ser de que tudo tem um tempo certo a ser vivido.

Encontrar alguém que nos queira o suficiente pra aceitar o preço dos nossos sonhos não é fácil. Se as pessoas se debatem diante dos amores mais óbvios, imagine então quando se deparam com os amores inexplicáveis aos espíritos menos preparados? Aquele tipo de amor insolucionável, mas inexoravelmente legítimo, que foge aos padrões estabelecidos e derrama-se diante de todos como uma verdade cristalizada. Esse sobrevive triunfante, ignorando quaisquer intempéries que se apresentem em seu caminho. Fortifica-se do reconhecimento retro-alimentado, pois não exige do outro senão a realização de sua felicidade, mesmo que isso signifique o não-compartilhamento constante do seu viver.

E quem seria eu pra tentar dar corpo a esse sentimento quando outros tantos poetas infinitamente mais sensíveis e mais doutos já o fizeram? Eis que ouso me arriscar nessa seara e faço uso dos seus reflexos em mim pra externar, por uma necessidade não sei qual, uma inquietação que me corrói, tentando trazer à tona algo sobre minhas indagações e descobertas acerca do peso dessa palavra. Se consegui ou não, pouco importa. Pelo menos assim me sinto mais leve.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

De Volta Pra Mim

Que a sede de afago do teu ego não te cegue para aquilo que verdadeiramente te preenche a alma

Que a tua incompletude pessoal não te prive de reconhecer os tesouros que a vida te afiançou por herança

Que não te aches tão absurdamente merecedor de graças que somente te foram dadas para provar a solidez do teu caráter

Que a retidão do teu caminho desbrave trilhas para os que, perdidos, vagam à procura de um rumo

E, por fim, que a tua certeza na eternidade dos laços sirva de inspiração para aqueles que desistiram do amor