"Ao escolher palavras com que narrar minha angústia, eu já respiro melhor. A uns Deus quer doentes, a outros quer escrevendo." Adélia Prado

sábado, 21 de agosto de 2010

Chuva que não pára

Deus, quanta sede!
A água de beber que me refresca não me sacia
Sinto no canto da boca a água que cai do céu
Bom saber que ainda chove por essas terras
Chuva de veraneio, com brisa
E não esqueça do vento
Ah, vento maroto que me sopra a nuca!
Folhas trazidas por ele sancionam antigos desejos
Tudo bem que o que foi tempestade hoje é garoa
Mas nada como deixar-se banhar pela pureza da água que vem de cima
Águas que já fizeram crescer carvalhos
Hoje elas apenas regam as flores da cova dos que morreram nas tempestades
E foram tantos os mortos nos últimos tempos
Alguns se foram para sempre
Mas nunca deixarão de servir de alimento a tudo que floresceu ao redor
Para os que insistem
Sempre existirão os fantasmas
Espíritos que se recusam a fazer a passagem
Volta e meia eles aparecem para beber na fonte
O sabor não é mais o mesmo, mas a essência sempre será
E é da essência que falo
Por ela ainda insisto
Com ela conclamo a criança que nunca dorme a brincar na chuva
Desnuda, liberta, enriquecida
Num paradoxo de tamanho entre o que é grande por dentro e pequeno por fora,
No afã de tornar chuva em rio e rio em mar,
Perco-me nesse mar
Pois é nele que tudo finda
Será nele meu último mergulho
Antes de me ascender chuva
E mais uma fez voltar a regar as flores

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