"Ao escolher palavras com que narrar minha angústia, eu já respiro melhor. A uns Deus quer doentes, a outros quer escrevendo." Adélia Prado

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Mergulhos

O que vou me tornar se, de repente, decidir não ser?
Qual será o meu encaixe?
Em que realidade eu viverei?
Mesmo no meio do fogo, quero tomar tranquilo banho de chuva
Não sei como falar de flores num mundo em que se planta status e se colhem egos
Como apresentar a dança da minha tribo?
Quantos dela ainda restam?
Já não se cansaram de sonhos e agora também se vestem de egos?
Por que o medo de que identifiquem o meu signo?
De que decifrem a minha língua?
Não tenho por ela o devido respeito?
Nem mesmo eu acredito na bandeira que levanto?
Recusar a oferta do baile das delícias é prudência ou covardia?
Fugir do confronto é digno de quem se diz sabedor da bondade?
Escondendo-se os bons, quem restará para testemunhar a favor do bem?
E se houver um refém a ser salvo?
Que fazer com a esperança que o manteve vivo até agora?
A fraqueza do medo impediu o sucesso de suas lágrimas
Vai deixá-lo mais um tempo à espera de um resgate
Nessa noite, não foi o desprendimento da vaidade quem venceu
Mas o orgulho travestido de timidez,
Que não suportou a possibilidade de se ver mais um em meio a tantos,
Ou quem sabe menos que isso até.

Um comentário:

  1. Nossa, como vc escreve bem! Encantei-me com esse texto, e nele me encontrei, até. Parabéns!

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