"Ao escolher palavras com que narrar minha angústia, eu já respiro melhor. A uns Deus quer doentes, a outros quer escrevendo." Adélia Prado

sábado, 17 de setembro de 2011

Pacotes Vazios

Tento desembrulhar os meus sonhos
Procuro nas caixas e pacotes da mudança
Cadê o que pus aqui?
Deve ter sido a transportadora, só pode ser
Aquele povo não sabe lidar com o que é frágil
Tava tudo lá, embaladinho
Guardei com carinho, pois sabia que era só por um instante
Eu ia só mudar de ares
Já sabia de tudo, detalhe por detalhe
Depois da chegada, era só desempacotar os quadros e pôr na parede
Sentava na sala, punha uma boa música
E sentia, e dormia... e voltava a sonhar
Caixas rompidas
Pratos quebrados
Tudo desbotado
Foi chuva em caminhão aberto?
Nem sequer uma lona para proteger
Seria mais caro?
Eu arcaria com os custos, bastava avisar que era assim
Como se volta a sonhar com o colchão encharcado?
Vou ter sonhos de neve
O sol derrete todos eles
Um cobertor de gelo não me protege
Me paralisa
Não deveria ter assinado antes da conferência
Eu e essa minha boa-fé, que tanto me bota em enrascadas
Agora é lidar com os cacos
Meus dedos pregaram de tanta cola, e pra quê?
Vida de remendos
Nunca a mesma forma de outrora
O que foi cristal hoje é pó transparente
Imagens opacas, lentidão, desesperança
Até o relógio parou
Martelaram o ponteiro do tempo
As pilhas não lhe dão corda, tampouco a mim
Vou fechar os olhos e me vestir de espera
Vou deitar no escuro e me cobrir de tristeza
Vou chorar sentido já que gritos soam em vão
Vou cerrar os lábios e não discutir
Tenho encontro marcado daqui a pouco
No quarto, eu e ela: a solidão.

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